terça-feira, 13 de agosto de 2013
Os primeiros passos em terras brasileiras
Depois da queda do muro de Berlim houveram grandes mudanças na estrutura do meu país e de muitos outros ao redor.
O meu povo não é burro.. não foi por isso que as vovós noveleiras acreditaram em tudo aquilo que aparecia na frente delas. Apenas durante quarenta anos a famosa 'cortina de ferro' filtrava a luz que vinha do ocidente, o que impedia a fácil absorção das inúmeras novidades. Mas eu era feliz mesmo assim, porque tinha apenas sete anos quando tudo isso acabou e para mim não fazia a menor diferença. Eu era apenas um muleque iniciando os meus estudos na escola.
Naquela época a Hungria estava completando 989 anos de idade como estado legítimo, mas da segunda metade desse tempo para cá foi quase sempre dominada. Primeiro pelos turcos, depois pelos Habsburgos da Áustria e por último pelas idéias comunistas que vinham da grande União Soviética. Todos esses povos tentaram ignorar o meu povo e sua cultura rica, porém sem sucessso. Eba!
Com muita luta e resistência conseguiram manter o húngaro como língua oficial ao invés da alemã na época da monarquia e graças a isso eu tenho a honra de falar um dos idiomas mais difícieis e mais expressivos do mundo. A língua qua até o diabo respeita "disse Chico Buarque" em seu livro que homenageia a minha linda cidade..Budapeste! Pensando bem, se eu não fosse húngaro nem chegaria perto deste idioma...É bizarro...
Toda vez que eu converso com a minha família pela internet ou por telefone a minha Preta acaba caindo no sono. Deve ser uma força maior que não a deixa acordada por mais de vinte minutos escutando eu falar o húngaro...
Mas o português...pois é. Também não é fácil. Se é falado em Portugal então é um idioma, se um paulistano fala é outro. O baianês é um mistério e o sotaque nordestino é de outro planeta...
Um belo dia a minha Preta e eu compramos um fogão...isso foi alguns dias após a minha chegada ao
Brasil.. entrega garantida do produto em até dois dias úteis..a loja cumpriu o prometido e no dia seguinte já tocou o interfone. A minha esposa mandou os entregadores subirem.
Conforme eles iam subindo com o fogão nas costas (nosso prédio não tem elevador) minha esposa me mandou abrir a porta e instruir os dois entregadores sobre o destino do fogão. Quando chegaram em marcha lenta eu já estava à espera deles. Só falei 'Bom dia!' com o meu português meia-boca e lá veio o banho gelado...um dos dois homens soltou um texto... mas não sei se foi o da frente ou o de trás.. pois a boca de nenhum mexia!!
Eu congelei na hora e perdi todos os sentidos olhando para a Preta (com meus olhos arregalados pedindo socorro) ... Acho que foi o primeiro susto que levei aqui em São Paulo em relação ao idioma.. Não me lembro como, mas descobri que a língua que eles falavam era o famoso nordestino e a Preta até conseguiu se comunicar com eles... Êitta!
Quando eu estava começando a aprender o português pedi para minha mãe um livro de gramática. Chegou pelos correios ao Japão em mais ou menos dez dias e então comecei a aprender o idioma ainda lá na terra do sol nascente. Estava indo muito bem até o dia em que a minha Preta perguntou 'Que horas são?' e eu respondi com toda naturalidade: 'São três e um quarto'...eu não devia ter feito isso, não mesmo! Ela arregalou os olhos e pediu o meu livro para examinar o conteúdo. Nem eu sabia, mas o livro era de português de Portugal e por isso aprendi coisas estranhas...Ela pegou o meu livro e corrigiu riscando as partes que não eram usadas no Brasil... a metade do livro sumiu e naquele momento eu achei melhor começar aprender na marra.
Aprender um idioma se misturando ao povo tem seus prós e contras. Imagina um cara chegando ao Brasil com vinte e quatro anos de idade.. simpatizando com o São Paulo Futebol Clube e falando pouco português...eu era o cara...quero dizer vocês conhecem a história do cara?..nada haver comigo. Virei a base de inúmeras piadas sem entendé-las muito bem...nessas condições qualquer um aprende muito rápido para não passar por situações onde todo mundo ri e você está na mão do palhaço.
Em 2007, já com oito meses de experiências no Brasil eu fiz um trabalho no Playcenter participando das Noites do Terror como cantor...e durante o trabalho eu consegui me encaixar cada vez mais e consegui construir amizades... principalmente ao redor da mesa de truco...alí acontecia tudo. Foram ensinadas para mim várias técnicas do jogo das quais eu não me lembro mais e também aumentei o meu vocabulário rapidamente.
Certa vez jogando truco um dos atores que fazia papel de um Vampiro me falou assim: 'Piter, se alguma coisa é certa aqui no Brasil você pode falar que é 'ÓVIBIU'...e ele não estava sozinho, pois outros dois atores sempre estavam junto para lhe dar apoio concordando com seus ensinamentos... Que legal pensei, agora posso ser mais culto, pois aprendi uma palavra difícil.
Saí encaixando a nova palavra em todas as situações possíveis para poder ganhar os elogios das pessoas...até que falei em casa ...ao dizer "é ÓVIBIU" no final de uma frase minha Preta fez aquela cara que me assusta...me perguntou onde aprendi essa coisa e ouvindo a resposta não ficou nenhum pouco surpresa..É ÓVIBIU que hoje em dia já não falo mais errado...!! rs
Essa mesma turma um dia me perguntou: 'A sua Esposa faz fio terra em você?'...sinceramente eu não soube responder .. nem dei muito ibope sobre aquela pergunta e nem perguntei nada a respeito pra eles .. Pois não sabia do que se tratava!! ...mas a curiosidade não se calava dentro de mim e ao chegar em casa perguntei o que significava 'fio terra' para ela.. .naquele mesmo momento a Preta catou o telefone e ligou para o autor da pergunta.. rs.. a conversa acabou em risada e tudo continuava igual pois o Vampiro não tem jeito...
Fiquei mais ligado nas coisas e não caí mais nas armadilhas com tanta facilidade..
...não com tanta...
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
Brasil?
O que você sabe do Brasil? ... foi o que me perguntaram os meus novos amigos brasileiros que arrumei uma semana após a minha chegada ao Japão.
Comecei a folhear o meu vasto vocabulário sobre o tal país, e as seguintes palavras passaram pela minha cabeça: samba, novela, futebol, Amazonas, Rio de Janeiro, Pelé, Ronaldo... um pouco mais que nada. Eu juro que queria impressionar mas tive que reconhecer que eu era tão ignorante em relação ao Brasil quanto qualquer outro gringo da minha idade.
Mas eu nasci num país socialista! Sim, isso poderia ser uma boa desculpa, mas vejamos bem: até essa altura do campeonato o muro de Berlim já não estava em pé haviam 16 anos , as fronteiras estavam livres e o mundo ocidental já havia tomado conta de tudo.
Pois é. O socialismo se foi, mas veio a escrava Isaura e hipnotizou o meu povo com seu olhar levemente bagunçado.
Fez tão bem que o povo da Hungria queria libertá-la junto com todos os seus companheiros .. Isso era preocupante em si, mas não bastava, chegou a coitada da Esmeralda que não teve a mesma sorte da Isaura, pois ela não enxergava. Não poderia acontecer diferente, as vovós entediadas e noveleiras juntaram uma parte de suas aposentadorias para a cirurgia dela. Alguém se deu muito bem, mas é o que acontece quando falta informação.
Ô Senhorrrrr... Que bagagem eu tive.. !!!!!
Ainda bem que as coisas foram melhorando e aos poucos as pessoas aprenderam um pouquinho da malícia necessária para não se darem mal. Pouco a pouco eu também aprendi cada vez mais coisas, mas infelizmente não cruzei com o Brasil no meu caminho. Talvez por isso eu não sabia da real existência da cidade de São Paulo que hoje é minha casa...quero dizer, eu achava que era na Argentina e ainda falei isso alto. Que bobo. Só piorei a minha imagem já meio abalada.
Enfim, eu me apaixonei por uma brasileira. Não a conquistei com a minha sabedoria sobre seu país e tampouco com a minha fluência no português. Foi no charme. É isso mesmo. Lá no Japão eu perdi a minha cabeça e nunca mais achei. Nem pretendo. Nove meses depois do primeiro beijo... Não, não, não, ainda não a engravidei. Isso vem depois. Apenas me casei com ela. Durante os nove meses que antecederam o nosso casamento aconteceram muitas coisas, inclusive o nosso noivado que era muito marcante. Como mencionei anteriormente o meu português não era fluente, mas era bastante ruim. Naquela noite de setembro eu estava reunido com a minha família num restaurante de Budapeste comemorando a nossa união. Eu não queria quebrar tradições milenares, então decidi ligar para o meu futuro sogro a quem eu nem conhecia pessoalmente para pedir a mão da minha noiva. Eu sabia que uma grande aventura estava para acontecer mas eu era confiante. O telefone tocou uma vez, duas vezes, na terceira ele atendeu. Eu comecei o meu texto bem pensado e até terminar estava tudo muito bem. As dificuldades apareceram quando chegou a vez dele. Ele falava pelos cotovelos sem abrir a boca. Foi tenso. Escutei educadamente tudo que me falou sobre a importância da nossa decisão e da responsabilidade que estávamos assumindo, mas não brilhei. Ufa! Só sei o que ele me falou porque a minha esposa estava grudada no celular junto comigo e me contou. Esta noite foi o primeiro grande passo no meu caminho até a data de hoje. Agora já entendo o sogrão sem precisar ler os lábios dele. Isso é maravilhoso.
Tivemos gêmeas, agora somos um quarteto. Eu mais três mulheres. Nada mal, pois na minha família na Hungria só tem mulheres, eu sou uma rara excessão, então estou super
acostumado com isso. Agora sou marido, pai, filho, tio, primo, etc.
Brasil? Vim para ficar mesmo!
Assinar:
Comentários (Atom)